Bhakti-yoga, o yoga da devoção

Bhakti-yoga, o yoga da devoção

Como vimos, em haṭha-yoga o aspirante é preparado para a realização espiritual através de um conjunto de práticas que visam a santificação do corpo e da mente. Em karma-yoga, ele aprende o agir correto, cuja essência é oferecer a Deus todos os frutos de nossas ações. Em jñāna-yoga, o aspirante busca o desenvolvimento de sua percepção espiritual para, desse modo, libertar-se da escravidão de māyā. Em dhyāna-yoga, por sua vez, o yogī meditadorse empenha em concentrar seu pensamento num objeto de concentração sagrado. Ao compararmos esses segmentos do yoga, constataremos que alguns apresentam caminhos mais longos, outros são mais técnicos e outros ainda mais místicos etc. Em última análise, quer seja o yoga da força,da ação, do conhecimento ou da meditação, todos encontram sua perfeição em bhakti, cuja essência é o serviço a Deus, às suas criaturas e à sua criação e cuja prática de yoga devocional se caracteriza pelas orações, recitação de mantras, estudos, pujas e diferentes rituais que visam promover o despertar do amor incondicional.

É interessante notar também que, no que se refere às virtudes espirituais, as definições mais profundas das escrituras védicas estão intimamente relacionadas com o Supremo. Samatvam, ou equanimidade, por exemplo, pode ser entendida preliminarmente como a capacidade da pessoa de se manter inabalável diante dos inevitáveis reveses materiais. Evidentemente, isso é yoga, mas, num nível superior, o bhakta pratica samatvam por perceber a presença da Superalma (Paramātmā) no coração de toda alma individual(ātmā) e, assim, banha seu coração de compaixão por todos os seres vivos, os quais são vistos por ele como emanações do Absoluto. De forma semelhante, sannyāsa, ou renúncia, é também requerida no processo do yoga. Todavia, uma coisa é entender a renúncia como meta e, assim, desvencilhar-se de todas as diferentes parafernálias materiais, e outra coisa, muito superior, é renunciar o interesse pessoal por elas e trilhar o caminho da entrega e da benevolência sem renunciar algo que possa ser utilizado no serviço a Deus e ao mundo.

Do mesmo modo, o yogī precisa praticar o autocontrole para apaziguar sua mente (Yoga-sūtra 1.2). Num primeiro momento, ele se empenha para erradicar as oscilações e os devaneios insensatos da mente. Embora esse esforço seja louvável e faça parte do caminho do yoga, ao avançar mais nessa prática (diríamos, assim, “reativa”), o yogī evolui a ponto de despertar sua consciência de Deus e, atuando de maneira proativa, passa a direcionar sua mente para pensar constantemente Nele, senti-Lo e desejar agradá-Lo, plenamente satisfeito com sua condição e livre de desejos pessoais. 

Tendo sua origem na raiz verbal bhaj, que significa “servir, honrar, reverenciar, amar, adorar”, bhakti é apresentado na Bhagavad-gītā como o estágio mais elevado do yoga. Para entender isso, basta constatar que em dez dos 18 capítulos da Bhagavad-gītā, Kṛṣṇa apresentaversos conclusivos que direcionam o leitor a compreender que a Sua forma pessoal é a origem de tudo e, consequentemente, a meta mais elevada (Gītā 5.29, 6.47, 7.30, 9.34, 10.42, 11.55, 12.20, 14.27, 15.20 e 18.78). Ele é o objeto supremo do conhecimento (Gītā 11.8), Aquele que há de ser conhecido através dos Vedas (Gītā 15.15) e O que deve ser alcançado por meio do conhecimento (Gītā 13.18).

Na verdade, é bastante comum que diferentes praticantes do yoga, por fim, acabem adotando o caminho de bhakti. Os haṭha-yogīs, por exemplo, costuma se inclinar a bhakti por terem seus olhos abertos para a sua realidade interna através do equilíbrio físico e mental. Os karma-yogīs o fazem por agirem de forma correta e, com isso, recebem a influência do modo da bondade, enquanto os jñāna-yogīs, como resultado natural do cultivo de divyā-jñāna, recebem conhecimento divino.

De fato, não restaria alternativa para o yogī além de constatar que Deus é Vāsudeva, onipresente (Gītā 7.19), a fonte de emanação de tudo (Gītā 10.8). Por isso, o Capítulo Quinze da Bhagavad-gītā apresenta o seguinte argumento conclusivo: “Quem quer que, sem duvidar, conheça o Absoluto como Ele é, a Pessoa Suprema, conhece tudo e com todo o seu ser O adora com devoção amorosa” (Gītā 15.19).

A suprema compreensão consiste em entender que Deus é a raiz da existência de todo ser vivo, que, por sua vez, é Sua parte integrante. Desse modo, aquele que executa serviço a Ele através de oferendas amorosas está nutrindo a sua própria existência da forma mais correta e sublime possível. Em outras palavras, aquele que serve a Deus serve melhor e mais adequadamente a si mesmo do que aquele que, de forma egoísta, busca sua própria satisfação, da mesma forma que aquele que rega a raiz de uma árvore beneficia melhor as suas folhas do que aquele que, negligenciando a raiz, rega apenas as folhas.

Obs.: Os principais textos clássicos que apresentam bhakti-yoga são o Śrīmad-Bhāgavatam, a Bhagavad-gītā (destaque especial para os Capítulos Sete, Oito, Nove, Dez e 12) (Vyāsadeva) e o Bhakti-rasāmṛta-sindhu (Rupa Gosvāmī) e o Bhakti-sutra (Nārada Muni).

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