Dhyāna-yoga, o yoga da meditação

Dhyāna-yoga, o yoga da meditação

Já vimos que, através de alguns ajustes espirituais, nossas ações se tornam yoga (karma-yoga), assim como a busca apropriada das verdades mais profundas se converte em jñāna-yoga. De forma semelhante, ao fazermos o devido uso da nossa ferramenta mental, podemos transformar a nossa concentração em meditação espiritual, ou dhyāna-yoga. Segundo Patañjali (Yoga-sūtra 3.2), “meditar é estabelecer um fluxo ininterrupto de pensamento voltado para o objeto de concentração”. Mas, é claro, nosso objeto de meditação tem que ser, antes de mais nada, real e transcendental. Em outras palavras, assim como, dependendo de sua forma de agir, uma pessoa pode ou se libertar ou se condicionar ainda mais, o mesmo acontece com dhyāna: dependendo da escolha do objeto particular no qual nossa mente se concentre, experimentaremos degradação mundana ou elevação espiritual. Isso é bem explicado na Bhagavad-gītā (2.62-63), quando Kṛṣṇadeixa claro que aquele que medita em objetos mundanos desenvolve apego por eles. Desse apego, brotam desejos mundanos, os quais dão lugar à ira. Estando, portanto, confusa, a razão dessa pessoa será destruída e sua compreensão espiritual desvanecida. Por outro lado, aquele que concentra sua mente nas verdades espirituais e no Absoluto se liberta (Gītā 13.25 e 8.7-8).

No Capítulo Seis da Gītā, há uma vívida descrição de dhyāna-yoga, na qual Kṛṣṇa menciona a importância do isolamento, da escolha do lugar sagrado, da preparação do assento, de como se sentar, refrear os sentidos e a mente, focando-a num único ponto, de como alinhar corretamente a cabeça, o pescoço e o corpo, mantendo os olhos semiabertos, praticando o celibato etc. A despeito de tantas considerações técnicas, Kṛṣṇa acaba concluindo que o yoga da meditação culmina em bhakti, devoção, sinalizando que o amor espiritual – e não a técnica – é sempre muito superior (Gītā 6.47).

A perfeição da meditação (ou samādhi) também é descrita na Gītā (6.19-23), quando há a indicação de que a mente do yogī meditador, além de se abster por completo das atividades mentais mundanas, precisa estar plenamente focada no Eu transcendental. A comparação desse elevado estado mental feita por Kṛṣṇa é a da lamparina que não tremula num lugar sem vento, pois, somente com a mente assim fixa, ocorre o despertar dos sentidos espirituais latentes. Então, através de sentidos transcendentais, o yogī consegue perceber seu Eu verdadeiro e saboreia o néctar dentro de si mesmo. Com o resultado natural de sua condição plenamente feliz e satisfeita é que ele se torna inabalável diante de qualquer situação material.

Patañjali, por sua vez, apresenta no Yoga-sūtra dois estágios de samādhi. No primeiro, o samprajñāta, o yogī consegue atingi-lo por meio de agudo discernimento espiritual, fruto de profundas investigações filosóficas (jñāna-yoga). No segundo estágio de samādhi, o asamprajñāta, o yogī se desliga de todo tipo de prazer derivado do contato dos sentidos com os objetos e, através de atividades devocionais imaculadas(bhakti-yoga), mantém-se em transe, gozando o prazer interno: “Semelhante pessoa liberta não se deixa atrair pelo prazer dos sentidos materiais, mas está sempre em transe, gozando o prazer interno. Desse modo, a pessoa autorrealizada sente felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo” (Gītā 5-21). Nesse estágio de samādhi asamprajñāta, considerado o mais completo e mais elevado, o yogī se percebe igual em qualidade ao Supremo. Fixando-se plenamente Nele, alcança a felicidade perfeita, pois se liberta da paixão mundana, bem como das reações cármicas passadas. Fixo em sua meditação, ele desenvolve pleno autocontrole, quando passa a perceber a Superalma em todos os seres e também vê todos os seres nela. De fato, nesse estágio de samadhī, o yogī é capaz de perceber a Superalma em toda parte (Gītā 6.27-29).

Obs.: Os principais textos clássicos que apresentam dhyāna-yoga são o Śrīmad-Bhāgavatam, (sobretudo o Canto Três), a Bhagavad-gītā (com destaque especial para o Capítulo Seis) (Vyāsadeva) e o Yoga-sūtra (Patañjali).

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