SEM TIRAR OS PÉS DO CHÃO

Quanto mais levamos a vida a sério, mais o nosso senso de humor naturalmente se manifesta. Ou seja, se a vida espiritual é profundamente séria, o que sobra – a vida superficial – não passa de uma piada.

Em outras palavras, quando é dedicado à insensatez humana, o humor é verdadeiramente saudável. Ele nos ajuda a superar barreiras, pois contribui para que não nos identifiquemos tanto com os obstáculos. Entretanto, quando direcionado à vida em si, o humor é nocivo, pois nos impede o cultivo da introspecção e da gravidade. Esse tipo humor, que tira nossos pés do chão e nos faz delirar, deve ser evitado a qualquer custo, pois nos conduz ao orgulho.

Na verdade, o termo “tirar os pés do chão” nos leva a refletir sobre o verdadeiro significado de humildade. Em latim, humus significa “terra”. A partir disso, temos a definição pragmática de humildade: ser simples, objetivo e com os pés no chão. O que se pressupõe também ser realista, veraz e honesto.

Por si só, em sua essência, o ser “humano” é conectado à humildade, já que é feito de humus. Este fabuloso homo sapiens é um pedaço de terra vivo, mas diferentemente das outras espécies, ele é sapiens, tem conhecimento, sabedoria, pode distinguir entre o bem e o mal. Mas, também tem liberdade para fazer escolhas erradas. Basta perder sua humildade. Basta ser convencido pela serpente do falso eu a tirar os pés do chão e cair em tentação – um elementar ato de vaidade impulsionado por uma sensação de liberdade absoluta que nunca existirá.

Ser verdadeiramente humilde requer grandes recursos internos, profundas realizações espirituais. Segundo Confúcio, a humildade é a base sólida de todas as demais virtudes, pois não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros.

Posso estar enganado, mas vejo o temor a Deus como uma das mais sólidas bases da humildade. Não o tipo de temor que pressupõe o terror, mas que nos inspira um respeito amoroso a Ele, até porque fica difícil imaginar nos lançarmos determinadamente no caminho da autorrealização sem estarmos estupefatos com a grandeza de Deus, sem considerarmos a imensa e misteriosa maravilha que é nossa própria vida.

Esse temor amoroso ao poder divino, que nos coloca numa condição de diligência, nos proporciona uma visão ampliada da vida e nos inspira a levá-la a sério, a conduzi-la como uma tarefa divina, que deve ser cumprida com um profundo senso de propósito.

E, quando me questionam sobre o que penso do capítulo do Livro do Gênesis que traz a metáfora sobre Adão e Eva, sempre respondo que considero uma das histórias mais verdadeiras que conheço, pois trata da tarefa básica da vida humana: a manutenção da humildade. Trata de nos mantermos enraizados no terreno do eu verdadeiro, de não tirarmos os pés do chão, de não sermos enganados pelas mentiras do eu falso. Representada na vida de cada um de nós, essa história mostra que, diante da tentação de querer ser o centro do universo, o homo sapiens atrai sua própria ruína quando perde a humildade. E sem ela, perde seu paraíso interior.

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